O corredor era estreitinho. Bum. Foi escurecendo, luz vermelha e bum. Tudo completamente escuro.
COmecou a me dar uma fobia. Um medo de que eu ia bater a cabeca no teto, ou que teriam alguns pilares na minha frente que imaginariamente tentava desviar. E quanto mais eu 'desviava' mais achava que ia bater. Quanto mais tentava me proteger mais achava que ia cair, mais achava que ia bater nos outros, que ia machucar alguem.
Takashi. Esse era o nome do nosso guia. Ele tinha avisado que ao entrarmos no restaurante deveriamos colocar a mao direita no ombro direito da pessoa da frente e entrarmos em fila indiana. Ele era a unica pessoa que quando falava comigo me sentia um pouco mais segura.
Quando entramos no salao principal do restaurante, naquele breu completo, comecei a desesperar. Eu sentia que minhas pupilas estavam dilatadas, buscando erroneamente alguma luz. Mas nao teria mais contato com qualuqer luz pelas proximas quase 3 horas.
Ele nos sentou em uma mesa que tinhamos que dividir com mais outras 10 pessoas. E o restaurante estava completamente lotado. So que por nao conseguirem se ver, as pessoas simplesmente gritavam. Falavam num tom ensurdecedor e aquela maravilhosa experiencia de comer no absoluto escuro um prato que eu nao fazia ideia do que poderia ser comecou a se tornar numa experiencia assustadora.
Meus ouvidos ouviam coisas que eu nunca tinha prestado atencao antes: ouvia o cara do meu lado mastigando o pao, o cara da mesa de tras mexendo o gelo no copo de wisky, a risada inglesa que precisava de escuro para poder aparecer livremente.
Comecei a desesperar. QUeria sentir cada pedaco. Cada respirada naquele ar quente. Queria sentir aquele medo. Mas eu nao conseguia. TUdo era distracao, uma taca que caia, alguem pedindo mais comida, risada. Muita risada, gritos, barulho. Nao aguentei. Comecei a chorar ali mesmo. Mas por que eu tava chorando? Nao sabia. SO sei que consegui me entregar aquele sentimento. Era um desespero, uma solidao, uma busca por luz. De olhar para os lados e pensar que na verdade todas aquelas pessoas so estavam passando pela vida e ninguem tava prestando atencao.
A inseguranca com medo do escuro e do desconhecido se tornava uma barreira tao grande e a falta de visao, literal, digo, nao enxergar mesmo e nao uma falta de visao mais filosofica, deixava-os tao vulneraveis que a unica saida era contar piada a noite inteira.
E incrivel que quando nao se enxerga, as pessoas erroneamente acreditam que nao se ouve e nao compreende as manifestacoes naturais do corpo tipo peido. Pode parecer engracao mas naquele restaurante em que todo mundo havia resgistrado com pelo menos um mes de antecedencia para conseguir uma mesa e deliciar as mais diversas comidas no mais completo escuro sentiam-se tao a vontade que simplesmente peidavam. Ou, discutiam sobre suas vidas sexuais. Ou, simplesmente falavam da pessoa do lado como se ela nao estivesse entendo o que estava sendo dito.
Como a percepcao do comportamento das pessoas muda quando vc, de fato, nao consegue ve-las para colocar seus pre-conceitos. Pessoas que do lado de fora, antes de entrarmos naquela experiencia noir se comportavam quase pedantemnte de tao educados chegando a me deixar sem graca, foi ao primeiro sinal da ausencia de olhos estrangeiros e julgadores para essas pessoas se mostrarem como sao. Quase como se estivessem em suas vidas privadas. Dentro daquele lar ingles medio, em que se trabalha 8 horas por dia, reclama do tempo e assiste programas de bizarrices na televisao.
Repassando agora na minha cabeca essa experienca de jantar no completo escuro e tentar fazer parelelos com a vida, com as coisas que eu vivo e de tentar observar as pessoas comeco a achar que essa historia nao tem fim...mesmo que eu tente criar um fim, um jeito de tentar justificar a minha ansiedade para aquilo acabar logo, minha frustracao por nao ter conseguido aproveitar aquela experiencia, minha vontade de mandar todo mundo calar a boca...a impressao que tenho e que essa insatifacao nao tem fim...
terça-feira, 29 de abril de 2008
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